23 de agosto de 2010

Nossa Senhora da Agonia - Viana do Castelo

Pois é! Agosto é mês de romarias por este nosso Portugal fora. Assim, e correndo o risco de ficar "viciado" nas festas populares que, de Norte a Sul, vão decorrendo um pouco por todo o lado (fiquem descansados os mais puristas, que ainda não fiquei fã de música pimba, dessa que tanto se ouve nestas romarias), depois das Festas da N. Senhora da Saúde, na minha aldeia natal, fomos até às Festas da N. Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, cidade natal da minha maridona!
Mas antes desta viagem até Viana (como cantou tão bem Amália: "Se o meu sangue náo me engana, como engana a fantasia, havemos de ir a Viana, ó meu amor de algum dia. Ó meu amor de algum dia, havemos de ir a Viana, se o meu sangue não me engana, havemos de ir a Viana!") tivemos os preparativos para a viagem. E que melhor forma de nos prepararmos para as festas populares do que... um jantar com amigos? Claro, não há!
Por isso mesmo a 13 deste Agosto quente e "ardente" (como rezam as crónicas dos muitos incêndios por este Portugal afora - pessoalmente também aprecio esta palavra!), reunimo-nos aqui na "FMJ Villa" com o Manuel Santiago e a Jesuína, para degustar um bacalhau com natas mas, principalmente, uns tintos de beber e desejar ainda mais.


...Figura_01: Em primeiro, como deve ser, a viagem enológica que realizámos nesta noite, partindo à descoberta de algumas preciosidades existentes na minha garrafeira. E se aquele Douro Reserva 1996 estava uma delícia, que dizer do Reguengos 1994? Um portento!


...Figura_02: E é por isso que poderão apreciar o ar de agradável descontração que se lê no rosto dos felizes contemplados: nós (Filipe e Zé, Santiago e Jesuína). Ah! Pois...

A 18, e na véspera de seguirmos para Viana (do Castelo), convidámos ainda os nossos amigos mágicos David, Vera, Mário Daniel e Cláudia (estes a virem directamente da SIC mas que, infelizmente, acabaram por não poder comparecer) para jantarem, desta vez um bacalhau com broa, daqueles de comer e chorar por mais, que a minha maridona tão bem sabe cozinhar. E ainda antes do jantar vieram também os nossos vizinhos Cravo apreciar uma torta ao final da tarde, que serviu de aperitivo para a janta. Ficam também as fotos para os registos futuros.


...Figura_03: Rui, Manuela e Gonçalo, do clã dos Cravo (o meu afilhado David acabara de sair para a sala); David e Vera, do clã dos mágicos; e a minha maridona, digna representante do clã FMJ (aqui sem o F, mas ainda com o Doc a querer aparecer... Vêem-no, ao fundo da foto?).


...Figura_04: O jantar a quatro, bem regado com um "Duas Quintas" que tão bem acompanhou o bacalhau... e a noite resultou agradável, mesmo lamentando a ausência do casal Mário e Cláudia.


...Figura_05: E cá vão eles rumo a Espinho, onde um dos casais ficou e o outro seguiu viagem (adivinhem quem foi e quem ficou!)

E tal como referi, no dia seguinte lá seguimos nós até Viana, aproveitando para passar por Espinho e ali deixar os nossos amigos Vera e o David, e pelo Porto, por casa da mãe Ana.
Claro que Viana estava "caótica", com milhares de visitantes para estas festas minhotas, mas felizmente nós tínhamos um quarto mesmo sobre uma das principais ruas da cidade, em pleno bairro dos pescadores por onde passaria a procissão, pelo que pudemos deixar o carro estacionado e andar por ali sempre a pé. E se caminhámos muito! Mas deixo-me de muito mais palavreado, para vos mostrar a reportagem fotográfica seleccionada.


...Figura_06: Chegados a Viana estacionámos o Fofocus junto à casa onde a minha maridona nasceu (da sua avó Miquinhas e agora das suas filhas herdeiras) e descemos até Viana e à festa!


...Figura_07: A descoberta de um dos raros espaços com pouca gente e que nos permitiu "abrir as hostilidades" com umas bjekas (também há quem as apelide de "jolas") para acalmar a sede daqueles 30 graus que se faziam sentir na rua... e em casa.


...Figura_08: E quem se atreve a dizer que ela não é sexy? Estou a falar daquelas duas garrafas, claro, como de imediato adivinharam... Prontes, está bem (tinha que arranjar motivo para dizer aqui o prontes!), ela também!


...Figura_09: Esta era a paisagem sobre a rua desde o nosso quarto, sito logo ali nas proximidades do largo de S. Domingos, um dos pontos de relevo nestas festas de Viana.


...Figura_10: E para aqueles que poderiam pensar que estas fotos não passavam de montagens, que eu nunca fui a Viana e que estava a utilizar a técnica daquele jornalista que sempre dizia "algures na Arábia Saudita" quando mostrava imagens da primeira Guerra do Golfo (lembram-se? E que depois vieram a dizer que eram montagens de outras filmagens que não na guerra? Que ele não estaria por ali...? Não? Tá bem!). Bom, mas para não me dizerem o mesmo, aqui estou eu bem no coração de Viana, na estação do Kim (sim, do Kim... boio).


...Figura_11: E novamente junto à estação de Viana, agora do lado da cidade e com o sol já a dormitar, mostrando a estátua do vira minhoto com a frase lapidar: "Hei-de voltar a Viana!"


...Figura_12: O casal mais simpático do universo em plena avenida principal, por onde desfilariam os cortejos nos dias seguintes, mas aqui mostrando apenas a iluminação que nos alumiou nestas noites (outra palavra que aprecio: "alumiou").


...Figura_13: Este foi o início da ornamentação das ruas dos pescadores, toda à base de sal colorido, que no dia seguinte apenas seria pisada pela procissão da N. Sra. da Agonia e pelos homens do mar, naquela que é uma das imagens mais marcantes destes festejos. Aqui era precisamente a "nossa" rua. Sabiam que estes enfeites são colocados pelos pescadores durante toda a noite e até à manhã do dia da procissão?


...Figura_14: Para nós o dia seguinte, sexta-feira, começou com o Desfile da Mordomia (antes iniciou-se a feira e houve a alvorada, mas isso era cedo demais!), encabeçado pelos tradicionais e divertidos "cabeçudos e gigantones".


...Figura_15: Seguiam-se-lhes os fantásticos grupos de bombos e Zés Pereiras, com as ruas a troar (eis outra palavra fantástica!) com o barulho dos seus tambores!


...Figura_16: Finalmente as figurantes principais deste cortejo: as mordomas, essas bonitas "raparigas solteiras e sem fama", no dizer daquela gente. Sabiam que elas vestem os seus belos trajes ostentando um riquíssimo conjunto de cordões de ouro e filigrana, típicos de Viana? E sabiam que vestem de vermelho (traje de mordoma), de azul (traje de morgada) e de verde (traje de luxar)? Sabiam isto tudo? Sabiam? Hã... 'Tá bem!


...Figura_17: Deliciem os vossos olhares com aqueles magníficos e ricos "peitos" das mordomas (não preciso de bolinha no canto superior direito, pois não estou a mostrar-vos nada censurável)...


...Figura_18: Olhem! Dois emplastros que ali andavam a apreciar as paisagens... Será que ainda vamos aqui ver o famoso "emplastro" portuense, cujo pai é o Pinto da Costa e a mãe é o Vitor Baía? Fica a interrogação...


...Figura_19: Mas voltemos à festa em Viana e ao fim do desfile mordomio. Este termina com os grupos dos bombos e os gigantones (e cabeçudos, claro!) a actuarem na Praça da República, num desfile que anima a multidão e, aqui sim, aqueles "Zabumbas e Zés P'reiras" fazem mesmo troar os ares!


...Figura_20: Eis (para nós) o melhor grupo que ali actuou, sempre prontos a darem grande espectáculo com um ritmo alucinante e uma força que a todos encantava.

E agora um pouco de história. Só a partir de 1893 é que estes grupos de Zabumbas e Zés Pereiras, assim como os Gigantones e os Cabeçudos, passaram a fazer parte desta romaria. A família dos Gigantones é formada pelo Manel e a Maria, o Doutor e a Senhora. Depois vem a família, com os Cabeçudos a correrem e a saltarem, dançando ao ritmo dos barulhentos bombos, numa tradição que reporta à procissão do "Corpus Christi" da Europa...


...Figura_21: Ops! Qu'é qu'é isto??? Atão num é que o emplastro entrou mesmo nesta publicação? Eu sei que estão a pensar: mas o que faz esta foto aqui, que nada tem a ver com as festas de Viana? Bom, nada! Mas já sabem como é: ao emplastro, o que importa mesmo é aparecer em locais de grande visibilidade. E o meu blog também já o é, pelo que ele fez mesmo questão de aqui surgir!


...Figura_22: Depois do almoço era tempo de ir apreciar as ruas enfeitadas nessa noite, antes que a procissão da tarde as "destruísse" à passagem. Esta era a "nossa" rua, que antes mostrei não ornamentada.


...Figura_23: Outra das ruas engalanadas com a sua história encantada...


...Figura_24: Est'outra ainda, com a mistura do verde do campo com o sal do mar...


...Figura_25: E outra ainda, com os motivos alusivos ao mar quer nos desenhos quer na cor do sal usado...


...Figura_26: Finalmente a tradicional Procissão dos Pescadores, com o andor da N. Sra. da Agonia em ombros de pescadores, já depois da Benção ao Mar e às embarcações com a famosa passagem pelo mar e rio, aqui em fase final, despedindo-se das restantes imagens que ficaram na Igreja de S. Domingos. E nós tão bem posicionados, a ver tudo isto da nossa janela do quarto...


...Figura_27: Depois disso foi a nossa vez de rumar até àquelas igrejas, apreciando as belas imagens que antes tinham desfilado. Como estas eram muitas, destaco aqui apenas duas, pela sua "menor divulgação". Esta primeira é N. Senhora, Maria quando ainda era menina...


...Figura_28: E aqui N. Senhora da Alegria, outra das "figuras" que desconhecia. Só não entendo porque é que os pescadores festejam "N. Sra da Agonia" em vez da "N. Sra da Alegria". Não seria mais interessante?


...Figura_29: Eis uma das imagens mais procuradas, com toda a gente a querer registar o momento com os gigantones em descanso... Até eu!

Mas a festa não era só desfiles, procissões e gigantones. Por todas as ruas havia animações variadas, desde as tunas académicas (masculina e feminina) que pelas ruas (en)cantavam, até às bandas filarmónicas que, em 3 pontos distintos da cidade, tocavam as suas músicas, ou os ranchos folclóricos... para não falar dos tocadores de concertinas e cantares ao desafio! E todas as noites havia fogo de artifício, para delícia dos olhares.


...Figura_30: No sábado houve novo cortejo, desta vez o histórico e etnográfico, este ano sob o título "Na Rota do Jacobeo". E lá vêem os gigantones e cabeçudos, a abrir as hostilidades...


...Figura_31: O primeiro carro alegórico com a menina "cabeça de cartaz" que, viemos a comprovar, é bem mais bonita que aquilo que o cartaz mostrava (quem terá sido o fotógrafo? E à custa desta "não qualidade fotográfica", pobre moça que tantou ouviu e leu. Basta uma rápida pesquisa no google sobre as polémicas deste ano nas festas, e rapidamente verão o quanto ela terá sofrido com as infames acusações. E tudo porque era familiar de um dos mayorais do cortejo - até escrevo com y porque... sim!)


...Figura_32: A sempre presente estação de Viana, agora retransfigurada em centro comercial pelo Belmiro de Azevedo, também teve representação alegórica, na sua ligação ao Porto e à Galiza.


...Figura_33: O mar de Viana nos Caminhos de Santiago, em que a romana Gallaecia (norte de Portugal) representava a Finisterrae, o Fim do Mundo ou o reino de Plutão. Quando as tropas de Décimus Június Brutus chegam ao rio Lima, param assustados, já que ninguém ousava chegar à outra banda, sob pena de esquecerem a sua pátria, a família e os amigos (rio Lima era o romano rio Lhetes ou rio do esquecimento! As coisas que eu sei... ler!)


...Figura_34: E ao Tribuno romano seguiram-se os seus centuriões e os seus soldados, quebrando-se assim o encanto mas ficando a magia daquelas águas e daquelas gentes.


...Figura_35: A interligação dos Caminhos de Santiago no Norte de Portugal remonta a tempos muito anteriores à independência e à presúria de Portucale, por Vimara Peres no ano de 868, consagrando a reconquista e o domínio definitivo pelos cristãos até ao Douro. A Igreja de Castelo de Neiva é, pois, anterior ao nosso Portugal, já que foi consagrada ao Apóstolo Santiago no ano de 862...


...Figura_36: Mais uma alegoria aos trilhos até Santiago de Compostela, terminando no Pórtico da Glória com o seu pilar simbólico, onde os peregrinos que por ali passaram desde o séc. XII colocam os cinco dedos da mão em outras tantas cavidades que ali existem. Mas para o ritual se cumprir, deverão ainda bater com a cabeça no "Santo dos Croques", escultura que representa a cabeça de Mateus, situada na base da coluna. Para os estudantes esta tradição é (quase) vital, já que a cabeçada (no dizer praxístico) "abre os crâneos à sabedoria". E até há os que deixam ali as suas cábulas.


...Figura_37: A rota marítima para Santiago, representada pelo galeão e seus marinheiros e peregrinos, que por terras de Portugal seguiam o itinerário de Montemor-o-Velho (Foz do Mondego), Aveiro (Rio Vouga), Porto (Rio Douro), Vila do Conde (Rio Ave), Póvoa do Varzim, Esposende (Rio Cávado), Viana (Rio Lima), Vila Praia de Âncora, Caminha (Rio Minho) e Vila Nova de Cerveira (Ilha da Boega).


...Figura_38: A Lenda do Galo de Barcelos. Conta a lenda que um galego, peregrino a caminho de Santiago, se viu em andanças por causa de um crime de "morte morrida" que agitava, na altura, as pessoas daquele burgo. E, por mais que jurasse a sua inocência, foi logo preso e condenado à forca. Depois de tanto clamar inocência e pedir para ser levado ao juiz, lá o levaram presente para voltar a reclamar inocência. "É tão certo que estou inocente, como certo este galo cantar quando me enforcarem!" Todos se riram mas diz a lenda que quando o peregrino ia ser enforcado, o galo cantou mesmo!


...Figura_39: Também a coimbrã Rainha Santa Isabel foi peregrina em Compostela, já depois do seu milagre das rosas... Não! Não vos vou contar este milagre, pois certamente que todos o conhecem...


...Figura_40: Depois do cortejo histórico seguiu-se o cortejo etnográfico, com muitos outros carros e pessoas em desfile, com motivos vários e variados. Como exemplo apresento o carro onde se mostrava o fabrico da broa, mas muitos mais desfilaram. A taberna Soares, o Restaurante Augusto, os moinhos de água da Montaria, o lagar e a prova do vinho pela Confraria do Vinho Verde, um alambique, a matança do porco, os serradores do monte e Tocat, o pastoreio, a tecelagem de lã, os bordados de Viana...


...Figura_41: E como a publicação já vai longa e as fotografias muitas, termino com uma última imagem de um dos ranchos folclóricos, com as suas gentes vestidas com os trajes típicos daquela região minhota.

E é por isso que vos relembro a música da eterna Amália: "Havemos de ir a Viana!" Fiquem bem!...

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